sexta-feira, 4 de junho de 2010

A percepção da criança sobre a morte

O texto aqui apresentado fora solicitado por uma internauta de nome Georgete. A poucos dias ela me enviou um email solicitando maiores esclarecimentos sobre a percepção da criança sobre a morte.
Assim, antes de mais qualquer coisa, devemos chamar a atenção sobre o tema apresentado visto este ainda ser encarado como um tabu por grande parte de nossa sociedade. Falar em morte ou sobre a morte em algumas famílias é quase impossível. É como se o comportamento de não evocar o assunto criasse poderes que repelissem a morte de nossos entes ou amigos queridos.
Portanto, já devemos esclarecer que o ato de não dialogar ou apresentar um comportamento de esquiva para com as crianças não é o melhor caminho para a compreensão do que é a morte. Os pais e ou responsáveis que ainda acreditam e se comportam como mencionado acima podem aumentar em seus filhos sentimentos de solidão, abandono além de tristeza, apatia e comportamentos ansiogênicos. Outro ponto importante pauta-se na fase de desenvolvimento que a criança se encontra. É de suma importância que os pais ou responsáveis conheçam a maturidade emocional de seus filhos para que possam se sentir mais seguros e passar esta confiança para as crianças.
A cada idade os recursos que uma criança tem para compreender os fenômenos que acontecem na sua vida são diferentes. Estes recursos variam e dependem de vários fatores, entre eles, sua maturidade e sua percepção do mundo a sua volta, sua história de vida, a forma como os pais e a escola lhe passam a informação e as crenças religiosas de seus pais.
Para facilitar a compreensão solicitada pela internauta separamos por faixa etária o desenvolvimento da criança.
• 0 a 3 anos
O bebê ou a criança percebe ou sente quando há a sua volta excitação, tristeza, ansiedade; percebe quando falta uma pessoa significativa ou a presença de pessoas novas ou estranhas ao ambiente familiar, porém ainda não possui recursos para compreender a morte, mas absorve as emoções daqueles que o rodeiam e pode mostrar sinais de irritabilidade, mudanças nos seus hábitos alimentares ou sono. Às vezes, se já adquiriu o controle dos esfíncteres, pode haver uma recaída e a criança pode fazer xixí ou cocô na cueca ou na calcinha. Depende muito da comunicação não verbal, do cuidado físico, do afeto e precisa ser reassegurado.
• Dos 3 aos 6 anos:
A criança acha que a morte é reversível, temporária, que a pessoa que faleceu voltará a qualquer momento. Nesta fase a criança é regida pelo que denominamos o pensamento mágico e egocêntrico: ela pensa que suas ações, sentimentos ou palavras são como varinhas de condom. As crianças dessa faixa etária, acreditam que a morte pode ser vista como um castigo devido a um mau comportamento.
A criança sente o impacto das emoções dos seus pais e irmãos; e freqüentemente o não dito o afeta provocando regressões, como fazer xixí na cama, chupar o dedo, segurar um paninho, etc.
Geralmente nessa etária os filhos têm dificuldade de expressar seus sentimentos verbalmente e conseqüentemente o faz através de ação; pode ficar mais agressivo, irritado ou impaciente quando brinca.
• Dos 6 aos 9 anos:
Algumas crianças começam a entender as causas objetivas da morte, algumas ainda não. Ainda podem ver a morte como um espírito que vem para levar a pessoa; pode pensar que a morte é contagiosa e ela pode morrer também. A criança se seduz por o tema de mutilação e mostra curiosidade em relação ao aspecto do corpo morto.
Pode associar a morte com violência, devido a isto freqüentemente pergunta “Quem o matou”? Cria categorias em relação a quem pode morrer: os mais velhos e os que apresentam deficiências.
Nesta fase se preocupa com o que acontece com os mortos, como vivem, comem e respiram. Mesmo neste momento pode apresentar ansiedade e ter dificuldade de expressar suas emoções e sentimentos de desamparo. Pode apresentar diferentes sintomas transitórios como fobias, regressões, psicossomatizações. Se os pais não trabalharem esses sintomas, eles podem perpetuar se por mais tempo.
• Dos 9 aos 13 anos:
• A percepção da criança: À medida que passa o tempo a criança tem mais recursos mentais e emocionais para compreender as causas da morte. Agora se preocupa com o fato de como vai mudar sua vida com a perda da pessoa, do relacionamento. Apresenta resistência a se abrir e falar de suas emoções. No inicio pode parecer que ela não se importa com o que aconteceu, que ignora os eventos, que faz de conta que não houve morte. Os sentimentos de angustia e tristeza demoram a aparecer, e ela pode ter uma tendência a se isolar. Começa a mostrar interesse em rituais religiosos. Nesta fase se for um dos seus pais que faleceu, a criança pode querer assumir as responsabilidades do falecido e tomar seu lugar para ajudar e aliviar a tristeza de quem ficou. Isto se torna um peso e causa de futuras somatizações e conflitos.
Portanto, Georgete espero ter contribuído para sanar sua dúvidas. Aproveito a oportunidade também para destacar a importânai dos educadores em ajudar os filhos ou os alunos a superar as dificuldades, mesmo na tenra infância.Desta forma eles poderão oferecer meios para que as crianças construam seus recursos internos para enfrentar as dificuldades do mundo adulto e tornarem-se pessoas com capacidade para lidar com suas emoções e criar a empatia para lidar com as dos outros.

1 comentários:

georgete disse...

adorei tirou todas as minhas dúvidas e incertezas obrigado
Georgete

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